A campanha que mudou uma nação

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Poster brasileiro
Foto: Divulgação
O filme NO, do diretor Pablo Larraín, é em essência maniqueísta, mas, como sugere o título, remonta uma importante passagem histórica do Chile detalhando e favorecendo, por motivos óbvios, a ação política contrária à permanência do então presidente em meados dos anos 80. O momento, o plebiscito de 1988 focado na continuação do general Augusto Pinochet na presidência. A motivação para a sua realização veio de fora. Diante da pressão externa, a convocação da população chilena a optar pelo SIM implicaria na legitimação do governo Pinochet, enquanto pelo NÃO cessariam os 15 anos de permanência do ditador no cargo, bem como as consequências desse período enumeradas em NO como exílio, tortura, perseguição, assassinatos, censura, além de outros.

O plebiscito de 88 foi antecedido por outros dois, os de 1978 e 1980, contudo a censura e fraude nestes resultaram em um Chile receoso e descrente. A certeza de vitória do SIM cresce em NO quando é apresentado outro tipo de medo. Com a saída do ditador a população temia também o retorno do sistema comunista ilustrado pelo desemprego, filas, educação precária, etc. Está aí o maior problema e o público-alvo do protagonista René Saavedra, interpretado por Gael Gacía Bernal, um publicitário convidado pelos membros do NÃO a liderar a campanha. A apresentação de Saavedra é continuada como pai, jovem e exilado de volta ao país recentemente. Não à toa o profissional é exposto nos primeiros segundos do filme, sendo este aspecto do personagem o mais evidente, mas também necessário diante das emoções evocadas pelo contexto político nos demais envolvidos na publicidade do NÃO. Em mais de um momento o distanciamento do protagonista é encarado como indiferença pelos atos ditatoriais.

Dia das eleições. Foto: Divulgação
Ao aceitar, o René publicitário é apresentado a uma proposta de campanha fundamentada no enfrentamento, para a qual indica a sugestão. No lugar das imagens chocantes, da explicitação do horror e brutalidade proporcionados à população seriam apresentadas durante um mês na televisão chilena cenas que incitassem alegria e liberdade. A propaganda eleitoral obrigatória deveria durar 30 minutos, sendo metade deles concedidos a ambos os lados. A campanha do NÃO e a história se intensificam na tela ao mostrar a construção do slogan “Chile, la alegría ya viene”, passando pela criação do símbolo, da marca, do jingle, dos vídeos e dos discursos. A proposta do SIM também é conhecida, mas já finalizada, quando têm início as exibições. A contraposição das idéias e estratégias de comunicação à medida que se desenvolvem estabelecem outra dualidade, a de mocinhos e vilões. Nessa fase a comunicação se mostra uma ferramenta de poder, tratada pelo primeiro grupo como informativa e pelo segundo como manipulativa. 

A estética e enquadramento por vezes trêmulo dão às imagens de NO aspecto verossímil, que se confundem com as de vídeos originais da década mescladas com a história do diretor. As cores e a textura vistas foram possíveis devido ao uso de equipamento no formato U-matic. 

Se os minutos da propaganda eleitoral são sinônimos de tédio ou comédia, as quase 2 horas de NO foram merecedoras da atenção de todos e do Prêmio da Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio (CICAE), além de ser o candidato chileno para a categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2013. NO é baseado em O Plebiscito, peça teatral do escritor chileno Antonio Skármeta, e mais um filme de Larraín sobre a ditadura chileno, compondo uma trilogia iniciada por Tony Manero (2008) e Post Modern (2010).

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